Alcantara, Educação

Alunos da Francisco Arruda ouviram memórias da ditadura

07, Abril 2016
Porque ouvir falar da ditadura dá mais valor à liberdade, três resistentes antifascistas partilharam com alunos da Escola Francisco de Arruda as suas experiências. Uma iniciativa em que a vereadora da Educação, Catarina Albergaria, apresentou o programa “Onde estava a tua escola no 25 de Abril de 1974?”

Galopim de Carvalho, professor, José Fanha, poeta, e Eugénio Ruivo, técnico superior na Câmara Municipal de Lisboa, têm em comum um passado de resistência antifascista nos tempos negros da ditadura em Portugal e foram à Escola Básica Francisco Arruda, em 7 de abril, partilhar com alunos e professores as suas memórias. Uma iniciativa que lançou o programa “Onde estava a tua escola no 25 de Abril de 1974?” e contou com a participação da vereadora da Educação, Catarina Albergaria. 

“Fui preso no dia 10 de janeiro de 1974, levado para a António Maria Cardoso e interrogado entre as 9h30 e a meia-noite. Fui alvo de espancamentos, de tortura, de maus-tratos… houve um interregno de dois dias e fui para a cadeia de Caxias, voltei e recomeçou o interrogatório, recomeçaram as torturas. Mas nunca falei, não denunciei ninguém e isso paga-se, paga-se com torturas.” Na voz de António Ruivo sentia-se comoção, nos rostos dos alunos e professores espanto e admiração.    

Envergando a camisola que usava quando foram libertados os primeiros presos políticos de Caxias, perto da meia-noite do dia 26 de Abril de 74, o combatente antifascista relatou longa e de forma emocionada a forma como foi preso e os processos de tortura a que foi sujeito, lembrando que começou muito cedo a actividade de resistência, com 15 anos, quando trabalhava numa oficina de automóveis e estudava à noite. 

Começou de resto a trabalhar muito cedo, aos 11 anos, pois “a escola era só para alguns”, frisou, recordando a separação de género que havia então nas escolas, “raparigas para um lado e rapazes para o outro”, ante os olhares incrédulos de muitas das crianças que durante todo o seu relato deixavam sair longas exclamações.  

Eugénio Ruivo foi, dos três resistentes presentes da sala, o único que esteve preso e isso contribuiu seguramente para a maior ovação da assistência, mas Galopim de Carvalho e José Fanha arrancaram também das crianças fortes exclamações com muito do que contaram. O professor quando explicou a forma como pediu casamento, “não tínhamos namoradas mas sim conversadas”, clarificou; o poeta quando abordou o flagelo da guerra colonial, que o levou de resto a despertar para o combate à ditadura. “Tinha 13 anos quando um imbecil do Colégio Militar [que Fanha frequentou] me mostrou um frasco cheio de orelhas, resultado de um hábito normal das tropas especiais que quando matavam alguém cortavam-lhe a orelha.”

 

O valor da liberdade

“Precisamos de valorizar a vida em liberdade”, afirmou Catarina Albergaria que lembrou ainda os 40 anos da Constituição da República, que este ano se assinalam, e os valores “de Abril” inscritos na Lei Fundamental como a solidariedade, a igualdade, a fraternidade e a liberdade. “A democracia não é fixa, é algo que precisamos de defender todos os dias”, sublinha. 

A vereadora apresentou o programa “Onde estava a tua escola no 25 de Abril de 1974?”, um lema que bebe na famosa frase de Batista Bastos. O jornalista e escritor gostou de resto da ideia e só não participa devido ao debilitado estado de saúde em que se encontra, revelou. 

O projeto é dirigido às escolas do ensino básico e consiste num concurso dirigido aos alunos do primeiro e do segundo ciclo, que são desafiados a realizar trabalhos de grupo ou individuais, utilizando diversos materiais e formas de expressão, em torno do tema. Propõe-se uma abordagem ampla ao nível cultural, arquitetónico, social ou outros, e procura-se despertar a criatividade, o sentido crítico e o interesse pela história do país, numa conjugação de diferentes valências e competências.

O desenvolvimento dos trabalhos decorre até 20 de abril, a recolha é efetuada entre 21 e 22, seguindo-se uma exposição no Parque Eduardo VII, entre 25 e 27. 

O programa inclui um autocarro multimédia com uma exposição sobre o 25 de Abril, que já circula nas escolas e esteve na Francisco Arruda, e a rubrica “À conversa com” que possibilita a partilha de experiências com várias personalidades ligadas à resistência no período do fascismo. 

António Costa Santos, jornalista, estará dia 12, às 10h30, na biblioteca da Escola Secundária António Damásio, José Fanha volta a participar no dia 14, às 10h30 na biblioteca da Escola Básica Passos Manuel. 

Já no Parque Eduardo VII, “À conversa com” conta com a escritora Alice Vieira no dia 26, às 10h30, e Eugénio Ruivo no dia seguinte, 27, também às 10h30. 

Ainda nos dias 26 e 27, a partir das 14h30 é tempo de jogo: “À descoberta do 25 de Abril”