Município

Filho da República

05, Outubro 2018
“Estávamos numa República e não se podia dar vivas à República”, afirma Manuel Sá Marques, com 95 anos, neto de Bernardino Machado,ao lembrar o período da ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Na conversa que com ele tivemos no Salão Nobre dos Paços do Concelho lembra-se de apanhar “cacetada” da GNR quando a oposição comemorava o 5 de Outubro, mas o pai “costumava dizer que a gente não tem o olho na nuca. A gente tem é que olhar para a frente.”
  • Filho da República
    Filho da República

5 de Outubro de 1910, implantação da primeira República em Portugal. Manuel Sá Marques ainda não era nascido, mas o seu avô, Bernardino Machado, marcava já a História do país: entre outros cargos foi ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro Governo provisório, até 1911, e Presidente da República eleito por duas vezes [1915 – 1917; 1925 – 1926]. 

Quando foi implantada a República Bernardino Machado não estava na varanda dos Paços do concelho, mas foi daí que Inocêncio Camacho o anunciou como detentor da pasta dos Negócios Estrangeiros. O episódio é conhecido, mas contado pelo seu neto tem outro sabor. A memória, a vida, a intimidade. Mais ainda quando a conversa é feita no Salão Nobre, junto à emblemática varanda de onde há tantos sopraram ventos de liberdade. 

“Ele só soube, de facto, que estava implantada a República e que era ministro em Alenquer e nas Caldas”, revela-nos.

Bernardino Machado terá viajado de comboio até às Caldas da Rainha, de onde partiu para Lisboa num automóvel. 

“Há uma carta dele para a minha avó desse dia 5 de Outubro, e há uma carta da minha avó do dia 6 de outubro a felicitar o marido por ser ministro e a dar vivas ao Exército e à Marinha." Os documentos não se perderam, perpetuam a memória no tempo e Manuel Sá Marques exibe-os com orgulho e emoção. 

A História contada continua pela voz deste autêntico filho da República e neto de republicano para recordar o período negro do Estado Novo iniciado com o golpe de 28 de maio de 1926, que ditou, de resto, o fim abrupto do segundo mandato do seu avô e o seu exílio. “Quase sempre os festejos do 5 de Outubro não eram na Câmara”, diz, adiantando que a efeméride era assinalada pela oposição sobretudo frente à estátua do Dr. António José de Almeida e no cemitério do Alto de São João. “Onde podíamos dar vivas à República, mas apanhávamos cacetada da Guarda Republicana. Veja a contradição: estávamos numa República e não se podia dar vivas à República!”

Sobre esses anos de fervor republicano, que viveu ainda menino, afirma: “houve um período conturbado, mas trouxe, de facto, as grandes modificações.” 

Quanto às recordações “de puto”, lembra que “andava na Avenida da República a jogar ao berlinde, de arco e gancheta até ao Campo Grande. Não se pode imaginar…”

Já a Lisboa de hoje está para Manuel Sá Marques “agora melhor. O meu pai costumava dizer que a gente não tem o olho na nuca. A gente tem é que olhar para a frente.”

Mais notícias sobre:
Município