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Humor e liberdade debatidos no Bordalo Pinheiro

24, Janeiro 2015
  • Humor e Liberdade de Imprensa no Bordalo Pinheiro
    Humor e Liberdade de Imprensa no Bordalo Pinheiro

No dia em que passaram 110 anos sobre a morte de Rafael Bordalo Pinheiro, 23 de janeiro, o museu municipal dedicado à sua obra juntou conhecidos cartoonistas numa interessante mesa redonda sobre o humor e a liberdade de imprensa. António (Expresso), Bandeira (Diário de Notícias) e Nuno Saraiva (Sol) foram os artistas convidados, Guilherme d’Oliveira Martins moderou o debate.

O recente massacre ao Charlie Hebdo constituiu uma presença incontornável no debate, embora este tivesse sido agendado ainda antes dos trágicos acontecimentos, explicou o director do museu, João Alpuim Botelho.

João Alpuim aproveitou ainda antes do debate para passar algumas imagens fortes que marcam a intervenção de Bordalo Pinheiro em torno da liberdade de imprensa e criaram no século XIX agitação na sociedade portuguesa, particularmente junto do poder político, lembrando o seu papel na dinamização de periódicos como “O António Maria” ou “A Paródia”.  

 

Direito à blasfémia humorística

A morte dos cartoonistas “atinge a dignidade de criação”, afirmou Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura. O confesso admirador de Bordalo Pinheiro lembrou ainda Voltaire e a sua conhecida afirmação de respeito pelos que pensavam diferente de si: “posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo". 

António, para quem Bordalo Pinheiro constitui “a maior referência nacional em termos de humor”, considera que Charlie Hebdo “é um símbolo”. Para o cartoonista, as grandes manifestações de rua a seguir ao massacre representam sobretudo a defesa da liberdade e de “um modo de vida que de alguma forma está a ser posto em causa”. 

Na mesma linha se situa Bandeira, que defende “o direito à blasfémia” e à liberdade de expressão. Mas se a chacina em Paris consternou o mundo, o artista considera que é preciso ainda assim aproveitar algo dos acontecimentos. “Eu pelo menos vou tentar fazer isso para melhorar o meu trabalho, o meu sentido de humor e a minha relação com a imprensa e a liberdade de expressão.”

Chocado e revoltado com o que sucedeu mas alertando para o exagero de manifestações em torno do Charlie Hebdo, “um jornal que as pessoas não conheciam”, Nuno Saraiva afirma que é preciso compreender que o humor tem os seus códigos e cada país ou cada país também. De resto, para o artista a maior parte dos portugueses pode ter ficado consternada com a chacina no jornal mas não se revê no seu tipo de humor.  

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