Educação

Poeta de Abril encanta alunos da Passos Manuel

14, Abril 2016
José Fanha, poeta, escritor e contestatário do regime de Salazar, foi ao antigo liceu Passos Manuel falar sobre o 25 de Abril com alunos do ensino básico. Uma iniciativa do programa "Onde estava a tua escola no 25 de Abril de 1974”.

“É um encantador e encantou-nos a todos”, disse de José Fanha, poeta e escritor, a vereadora da Educação, Catarina Albergaria, na sessão sobre o 25 de Abril que encheu o auditório da Escola Básica e Secundária Passos Manuel com crianças dos primeiro e segundo ciclo do ensino básico. Uma iniciativa integrada no programa “Onde estava a tua escola no 25 de Abril de 1974”.

E o convidado encantou mesmo os alunos durante os cerca de 60 minutos em que falou do Portugal nos tempos de Salazar, “um país chato, feio, triste, cinzento e sujo”, declamou vários poemas, falou de si e respondeu a muitas perguntas vindas dos senhores de palmo e meio. Senhores, sim, porque “vocês têm que ser tratados como senhores”, frisou.

Uma hora de boa disposição, muitas gargalhadas mas também exclamações, porque no tom brincalhão de Fanha foram muito sérias as coisas sérias que o poeta disse e contou, falando sobre realidades como a PIDE, as prisões, as torturas, a guerra colonial, a emigração, as mulheres que não podiam votar ou as professoras que só podiam casar com um homem que tivesse um salário superior ao delas… Esse era afinal o objetivo da conversa: falar de liberdade e do 25 de Abril, lembrando o país que a revolução veio mudar quando o poeta contava então com 23 anos e já tinha despertado para a contestação ao regime. 

 

Poesia por um país melhor

Um homem que estudou no colégio militar, gostou muito mas formou-se em arquitetura para não ser militar, a profissão “mais próxima do que seria aceitável” pelo pai, também ele militar, e da vontade de ser ator ou artista. Um homem que afinal "não arquitetou", foi professor e em 1969 começou a ler poesia em público, muitas vezes ao lado de José Afonso, que, lembrou, fazendo reagir com espanto a pequenada, foi 13 vezes preso. 

Poesia que não era dita de forma branda, salientou, revelando que se tratava de contestação contra o regime de Salazar, “um homem que entrou para o governo em 1928, tornou-se primeiro ministro em 1933 e só deixou de o ser quando caiu de uma cadeira abaixo, bateu com a cabeça e ficou arrumado, em 1968.” E era dizer poesia “muitas vezes com a polícia de choque à porta”, frisou ainda. 

Mas foi em ambiente de liberdade, essa liberdade conquistada há 42 anos, que José Fanha declamou versos de poetas conhecidos como Sophia de Mello Breyner, E.M. de Melo e Castro ou Ana Hatherly. 

No início, um de autoria de Fernando Pessoa a verberar Salazar e com o nome do ditador: “António de Oliveira Salazar / Três nomes em sequência regular... / António é António. / Oliveira é uma árvore. / Salazar é só apelido. / Até aí está bem. / O que não faz sentido / É o sentido que tudo isto tem.” Embora muita gente não saiba Fernando Pessoa odiava o Salazar”, afirmou Fanha, para esclarecer que o famoso poeta morreu dois anos depois de Salazar entrar para o poder mas “ainda escreveu um ou dois poemas contra ele.”