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Brasão da Cidade

Brasão a preto
Brasão a cores

A Heráldica dos Concelhos, constituída pelos brasões das Autarquias, é um verdadeiro universo iconográfico e simbólico, constituindo uma fonte inesgotável de informação histórica, religiosa ou mitológica dos lugares. O brasão de Lisboa não é exceção! As próprias cores e os seus esmaltes transmitem-nos sentimentos e valores específicos: o preto significa a terra, a firmeza e a honestidade; a prata, a humildade e a riqueza; o ouro, a nobreza, a fidelidade, a constância e o poder e o verde, significa a esperança e a fé. A iconografia simbólica Olisiponense está encerrada, para além da história da própria cidade, para além do mito, numa lenda religiosa.

 

Ainda nos tempos do Imperador Dioccleciano, aquando da perseguição aos cristãos, faleceu, martirizado às mãos do impiedoso Governador de Valencia, Públio Daciano, o Diácono Vicente, do Bispado de Saragoça, no ano 304 da era cristã. Depois da sua morte “Mandou então (Daciano) lançar o corpo às aves, e animálias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto guarda-lo e defende-lo…”( Galvão, 1906,).  Segundo Duarte Galvão teria sido apenas um corvo, e não dois, a guardar o Santo. Começa aqui a lenda dos Corvos protetores do Santo. Posteriormente lançado ao mar, deu à costa e foi recolhido por cristãos, que o sepultaram em Valência, dando início à sua devoção.As suas qualidades pessoais e os milagres que lhe eram atribuídos, fizeram-no conhecido em toda a Espanha. Quando, em 711, os Muçulmanos conquistaram a Península Hispânica e profanaram templos, derrubaram altares e despedaçaram as imagens sagradas, os cristãos quiseram defender os despojos do seu Santo milagreiro, S. Vicente, levando-os de terra em terra, até que chegaram ao Promontório dos Corvos (Cabo de Sagres), pelos muitos corvos que aí habitavam, e aí o enterraram. O Promontório tomaria, mais tarde, o nome de Cabo de S. Vicente, em sua homenagem. Quando o Rei D. Afonso Henriques tomou conhecimento desta história mandou buscar o corpo do Santo, em 1176, para prestígio e glória da conquistada Cidade de Lisboa, no ano de 1147.

 

As relíquias, primeiramente conduzidas para a Igreja Paroquial de Santa Justa e Rufina, acabariam por ser trasladadas, aquando do Terramoto de 1755, que a reduzira a escombros, para a Sé Patriarcal - São Vicente tornou-se, nessa altura, o Santo Padroeiro da Lisboa e os Corvos nunca mais deixaram de ter representação, na heráldica da Cidade, pelo menos desde o século XIII. Segundo a lenda, nessa viagem, desde o Promontório de Sagres até Lisboa, os despojos do Santo foram sempre acompanhados por dois corvos.

 

Sousa Gomes adianta que o Corvo nada mais representa que esse piloto da nau, e, que, talvez por isso, os marinheiros da Idade Média os levassem consigo para se guiarem até bom porto. Quando precisavam de ir para terra, soltavam-nos e seguiam o seu voo. Se os corvos não encontrassem terra voltavam à nau. Defende, mesmo, que o primitivo símbolo de Lisboa é uma simples barca, que poderá ter uma conotação sagrada se lhe atribuirmos alguma semelhança com o mito bíblico da Arca de Noé, na qual este se refugiou, acompanhado de animais, para escapar ao dilúvio (também o corpo de S. Vicente atravessa os mares, incólume, apenas guardado pelas duas aves); num segundo momento ter-se-ão adicionado à barca, símbolo de Lisboa, os dois corvos, que lhe vão conferir um significado marítimo e, só posteriormente, as relíquias sagradas do Santo, dando-lhe uma certa religiosidade.

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Bibliografia

Bibliografia

Chaves, Luis «Os Negros Vicentes» in: Lisboa nas Auras do Povo, Vol. IV
Dias, Jaime Lopes, Brasão da Cidade de Lisboa, 2ª ed., Lisboa, Câmara Municipal, 1968.

Dicionário de História de Lisboa, Lisboa, Carlos Quintas & Associados Lda., 1994.
 
Felgueiras, Guilherme, O Corvo na tradição e na heráldica olisiponense, Lisboa, 1991

Fragoso, Margarida Ambrósio Pessoa, O emblema da Cidade de Lisboa, Lisboa, Livros Horizonte, 2002.

Fernandes, Lídia O Corvo como Atributo ou o Corvo como Signo. Separata da Revista de Ciências Históricas, nº XII. Universidade Portucalense, 1997

Galvão, Duarte Chronica de El-Rei D. Afonso Henriques, 1906

«VIII Centenário da chegada a Lisboa das Relíquias de S. Vicente», in: Revista Municipal. S. e, N- 136/137, 1973

Matos, Francisco «A Bandeira Municipal de Lisboa: introdução à vexilologia autárquica olisiponense». In: Cadernos do Arquivo Municipal. N. 5, 2001.

Sousa Gomes «Os Corvos na Barca de Lisboa», in: Revista Municipal, nº 50, 1951.

Nascimento, Alfredo Ferreira do «O Brasão de Armas da Cidade de Lisboa», in: Olisipo, nº 72, 1955.

Portaria nº 9468, publicada em Diário de Governo. S. I, nº 48, de 28 de Fevereiro de 1940