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Concurso Público Internacional de Conceção para Elaboração do Projeto do Campo das Cebolas / Doca da Marinha

O Município de Lisboa lançou o Concurso Público Internacional de Conceção para Elaboração do Projeto do Campo das Cebolas / Doca da Marinha, cujo anúncio foi publicado no Diário da República n.º155, 2.ª série, de 10 de agosto, aguardando publicação no Jornal Oficial da União Europeia.

No dia 8 de janeiro de 2013, o juri  anunciou a proposta vencedora, da autoria do arq. João luis Carrilho da Graça.


Proposta de Intervenção

A intervenção proposta para a antiga Ribeira Velha centra-se na criação de um espaço urbano de conforto, através de um conjunto de operações sobre o território muito contidas, de grande serenidade. Uma intervenção que, com o mínimo, potencia o máximo, enquadrando e respondendo às diferentes variáveis e saberes em presença.

Propõe-se a definição de uma praça que, pela sua natureza e formalização, se contrapõe  ao vizinho Terreiro do Paço. Não um espaço seco, de representação, com uma relação visual e física com o rio franca e encenada, mas antes uma praça que se volta para a cidade, recolhida sob um coberto arbóreo. São criadas as condições para que se torne um espaço mais habitável, mais amável, e que, através de uma intervenção discreta, devolve ao lugar a capacidade de ser palco da vida urbana.

Materializa-se através da deformação do plano existente, criando um desnível suave que nos conduz ao interior da praça e a um anfiteatro que se volta sobre a encosta da Sé, que evoca a localização e geometria dos muros do antigo Cais de Ver-o-Peso. Uma superfície pétrea, permeável, que se dobra com subtileza para conformar esse espaço rebaixado e se reergue depois num pequeno pódio, estendendo-se sobre a avenida marginal até alcançar a Doca. 

A presença dos pinheiros mansos, espécie arbórea transversal a várias épocas e culturas, como que celebra simbolicamente a história — e futuro — deste lugar, um ponto de partida e de chegada à da cidade de Lisboa. A cobertura vegetal dos pinheiros mansos, na superfície côncava, concorre para uma possibilidade de desaceleração e descontracção, um espaço de estadia, ensombrado e silencioso.

O tratamento da área junto à Casa dos Bicos, a Norte, é sensível ao facto de estar aqui sediada a Fundação José Saramago e ao memorial do escritor aí erguido. Propõe-se uma entrada na Fundação mais suave, através da modelação do pavimento, e a definição de um novo banco, que confere ao memorial o espaço de reserva e recato de que é digno, recentrando-o face à Casa dos Bicos e ao terreiro fronteiro. O intuito de criação de um lugar para o memorial levou à localização do edifício da loja numa posição mais afastada mas de destaque, constituindo o remate do quarteirão. É um volume translúcido, com um alpendre prolongado, cujo extremo pousa no dorso de um elefante em pedra — espécie de cariátide.

A relação da Praça da Ribeira Velha com a Doca da Marinha reveste-se de especial importância, tornando-se mais franca e permitindo o acesso efectivo até ao rio. 

A grande operação aqui realizada, além da reformulação do programa edificado, é a demolição do muro periférico que actualmente a separa da Avenida, dando lugar a um grande passeio arborizado, que desde Santa Apolónia se estende ao Terreiro do Paço, sendo também suporte dos percursos de mobilidade suave.

A Doca assume a condição de um espaço de descompressão de onde se têm vistas privilegiadas sobre a encosta da Sé e Castelo e sobre o rio Tejo. O seu funcionamento é, programaticamente, dividido em duas áreas. A Poente, localizam-se os edifícios e equipamentos de uso mais público. Um equipamento cultural na extremidade da doca, junto à Estação Fluvial Sul/Sueste, funciona como espaço de apoio a eventos náuticos ou outros, contendo ainda um espaço de restauração associado a uma esplanada. Ao longo da Doca dispõem-se um conjunto de pavilhões, de carácter mais efémero, que se destinam a albergar actividades comerciais ou de restauração. A Nascente, junto ao limite da Doca, contrapondo-se ao edifício do equipamento cultural, localiza-se o edifício que engloba os relocalizados serviços da Marinha e da APL.

Os dois edifícios propostos para o quarteirão a Nascente da Praça, albergando um conjunto de serviços e um silo automóvel, completam a volumetria do lote trapezoidal, garantindo entre si um afastamento que permite a passagem da Rua da Alfândega até à Avenida Infante D. Henrique. O edifício de serviços desenvolve-se em três pisos acima do solo. O piso térreo é recuado face aos planos marginais, prolongando o espaço público por baixo do edifício e abrindo a perspectiva sobre a Praça da Ribeira Velha, anunciando-a. Nos níveis superiores desenvolvem-se os pisos de serviços. O edifício do silo automóvel é um volume opaco, fechado, que alberga no seu interior duas espirais entrelaçadas que materializam o próprio estacionamento, uma de sentido ascendente e a outra descendente. Ambas as coberturas podem ainda ser utilizadas para eventos de várias naturezas e ser complementadas por estabelecimentos de restauração, aproveitando as vistas, simultâneas, sobre o rio e a cidade.